quinta-feira, 2 de junho de 2016

Juntas

Um dia acreditaram que a mulher tinha que cuidar de todos. Mas hoje (mesmo que a gente ainda tenha que explicar pralgumas pessoas) se sabe que também é um dever do homem. Houve uma época (não é a de agora, claro que não) que eles temiam tanto a nossa força que começaram a inventar as histórias mais malucas, dizendo que não podíamos votar, que não podíamos trabalhar, que não podíamos isso ou aquilo, porque sabiam que o nosso poder era tremendo. Chegavam mesmo a usar uma força bruta, deixando machucados que remédio nenhum daria jeito. Mas nosso poder era tanto que escapava pelas frestinhas e mais ali na frente deixava sementes para serem cultivadas. Hoje a gente já colhe muitos desses frutos e por isso devemos dizer muito obrigada a todas as mulheres que vieram antes de nós. Aquela que logo te antecede e onde começa a sua árvore é um exemplo dessa linda força, de segue nos caminhos mesmo quando o chão é de pedras.  Ainda há muito o que fazer, minha sobrinha, e é no todo dia que a gente rega e cuida  pra que ninguém venha destruir aquelas sementes. Sigamos juntas, de mãos dadas. 

Com amor e sororidade,
tia Lulu

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

"Bêchos"

Estava outro dia com sua vó no telefone ouvindo e contando sobre suas peripécias. E de repente a voz dela ficou séria, e se estivéssemos num filme começaria a chover na janela ao som de um piano melancólico. Pronto, ela se desculpava antes mesmo de se confessar: nunca mais faria isso. Isso o que, mãe? E o piano ao fundo viraria um violino arranhado em suspense. Silêncio. E depois: nunca mais dou uma chinelada num bicho na frente da Camille, nunca vi ela tão triste. Eu, seu pai e seu tio Tatá passamos quase a vida toda, até chegar a hora de arrumar as malas e descobrir novos horizontes, morando numa casa com quintal. Por lá já passaram cachorro, gato, passarinho, largartixa, calango, borboleta, mariposa e não faz muito tempo sua avó adotou uma gambá de estimação, que ia toda noite dormir num cantinho do muro. Na grama viviam todo tipo de insetos, que às vezes entravam na casa e acabavam ganhando uma chinelada-passaporte pro céu dos bichinhos. O seu primeiro berço foi também numa casa com quintal, com vizinhos barulhentos que latem sem parar quando a gente se aproxima. E é disso que você gosta: dos bichos vivos, barulhentos, soltos pra irem e virem naquele correr louco. Os au aus (uma das primeiras palavras que você falou, porque o som também pode ser palavra) de cidade grande são dóceis, quietos, se aproximam numa curiosidade contida e você os olha com uma seriedade infinita, porque já aprendeu sobre a importância e o respeito pelos bichos. Mas todos temos a impressão de que você espera o latido que nunca vem, e então seu pai e sua mãe visitam a casa com quintal e de novo você encontra a vida ali, agitada, com os vizinhos que latem e os visitantes que escalam paredes, direto da história da casinha infestada de cupim. O Bruno contou que a sua esperança quando conheceu a lagartixa era que ela olhasse pra você, olhasse pra você e fizesse uma careta. As lagartixas são tímidas, mas tem lá o seu encanto (até uma lesma gigantesca que morava perto das flores tinha seu encanto; outra adoção singular na nossa família: a Helô apresentava a todo mundo, chamava-se Gary). Seus pais contaram que num desses fins de semana você foi visitar os vôs, naquela casa com quintal que povoou nossa infância. Também temos por lá nossos vizinhos barulhentos: dessa vez um galo desregulado que canta às duas da madruga. E às três e meia, sete, cochila até uma quatro da tarde (afinal, quem aguenta ficar acordado de manhã sem dormir à noite, fora seus pais?) e volta à cantoria até escurecer. Essa foi a novidade do fim de semana. E junto com o galo, você acordou e cantou a noite toda essa música de cidade pequena. Isso tudo faz a gente se lembrar de uma pessoa iluminada que, como você, adorava os bichos e entendia a sua língua. O mundo dela era tão grande que a casa com quintal foi um punhado de cercas, mas ainda assim ela descobria a voz da natureza nesses pequenos encontros como as suas descobertas. Contava histórias dos bichos e da terra, porque soube ouvir cada um deles com atenção. A vovó Iria tá lá, cuidando dos bichos do céu, e vez ou outra, nessas horas que você se encanta, ela vem ficar pertinho.

Com muito amor e uma saudade,
tia Lu

domingo, 26 de outubro de 2014

Cantarolices

Preciso lhe contar uma coisa. Antes de você chegar, eu já era tia. E ganhei esse título do jeito mais bacana de todos: fui adotada por uma sobrinha. Isso aconteceu num dos dias em que seu pai e sua mãe celebravam a união, juntando a família num casarão antigo com jardim no fundo e restaurante de filme. Eu e a Lili, sua prima, descobrimos lá no cantinho um piano de calda. Sentamos com a elegância de duas musicistas famosas e ela se arriscou a me ensinar algumas notas. Foi a sinfonia mais linda e desafinada que aquele salão já assistiu (linda por conta da Lili, desafinada por causa do garçom que me desconcentrou). Você, que ainda estava dentro da barriga da Helô, ficou ouvindo tudo. Foi aí que eu ganhei uma sobrinha e também aí que você começou a dançar. É impressionante como você gosta de música: não importa o que esteja fazendo, quando alguém canta, quando passa a propaganda com o tema do desenho, quando alguém aperta o brinquedinho que toca, você pára tudo e começa a dançar. E nós, que já havíamos esquecido como fazia, voltamos a chacoalhar o esqueleto, improvisar letras, tirar poeira daquele instrumento perdido, cantarolar melodias. Toda vez que volto de algum de nossos encontros me pego distraída cantarolando as peripécias da dona aranha, da casa infestada de cupim, do gato, coitado, que berrou por causa de uma travessura das brabas. A vida com você é assim: muito mais cantarolante. 

Com um amor rico rico rico de marré-de-si,
tia Lu

obs: esse texto era uma encomenda pra eu contasse dos seus dentinhos nervosos que às vezes deixam marcas na gente (e deixou na bochecha irresistível da Lili), mas acabei lembrando dessa outra historinha que furou a fila e entrou na frente. Mas deixo aqui um pedido: guarde os dentinhos pra mostrar nos seus sorrisos lindos e pra picotar os biscoitos, tenha dó da gente! Dó maior.

domingo, 10 de agosto de 2014

Pais

A história que mais tenho contado ultimamente é que você faz o rugido do leão mais assustador e lindo do mundo todo. Às vezes tenho a impressão de que estão acabando as pessoas que ainda não ouviram, e então repito descaradamente para aquelas que já até imitam o leão junto com você. A tia tá uma chata de galocha e boba de orgulho, mas quem se enche ainda mais é aquele que magistralmente te ensinou essa proeza: seu pai. Nunca encontrei uma pessoa tão cansada, gripada e feliz como ele. Se as horas de madrugada nas idas e vindas pra te fazer dormir (e do ir trabalhar como se a noite tivesse sido de rei) lhe cavam olheiras no rosto, é só falar de você ou te encontrar que um sorriso brota na mesma hora. Esse moço do coração de ouro tem tanta coisa boa pra te ensinar, Camille, e tanto amor que mal cabe nele. Mas essas coisas todas também aprendemos com outro grande mestre, que a cada passo de nossas vidas esteve ali, dando força pra seguir adiante e exemplos para que nos tornássemos pessoas melhores. Ele também já andou te ensinando algumas coisas, mais histórias que não canso de repetir. A esses grandes mestres, que nos ensinaram a fazer narizinho, leão, engatinhar e caminhar com nossas próprias pernas, todo o nosso amor e gratidão. A eles, um feliz dia dos pais, com direito à caneca assinada pela mais nova artista no pedaço, pra tomar café amanhã e não cochilar no trabalho :)

Com amor,
da filha, irmã e
tia Lu

domingo, 8 de junho de 2014

Descuidos

A vida do outro esbarra na nossa a todo tempo: nas calçadas, no sinal fechado, no espelho do elevador, no vão que separa os apartamentos. Espaços que nos dividem e que dividem com a gente um pedacinho do outro. Na minha cozinha chegam muitos desses pedacinhos em conversas que o vento traz entre os vidros da janela. Adoro ouvir a vizinha de cima cantando sambas antigos, com a voz rouca de um cigarro que ela jura que não fuma mais. Não gostava quando o casal ao lado entrava numa briga: eram desentendimentos que me traziam angústia. E hoje, na portaria, encontrei uma outra vizinha que me repartiu a melhor das notícias: sua saúde andou pisando em gravetos, numa fragilidade preocupante, mas os sustos tinham passado. Havia adoecido por causa do estresse. E esse mesmo estresse era um dos seus pedacinhos que me chegavam pelo vidro da cozinha, numa voz impaciente que pedia ao filho "silêncio!" . Tive vontade de lhe falar que ela passara pelo mais difícil, que nada mais lhe derrubaria, que aproveitasse a nova fase para curtir o que tanto temia perder. Mas esse esbarrar da vida, por ser sempre pedaço e nem sempre consentido, pede de nós uma delicadeza sobre o que dizer. Estava feliz por ela estar bem, e por isso sorrimos e isso já foi tudo. Mas fui embora pensando no quanto o estresse é um bicho danado. Às vezes ele, junto com os problemas, as horas pouco dormidas, as chateações que nos apertam as sobrancelhas, deixa a vida muito cansada . É como uma sombra que, de cada coisa, vai tirando a sua luz. Tem dias que escapar disso é um desafio sem tamanho. Por isso a gente precisa lembrar sempre dos nossos lugares de respirar, aqueles intervalos que ajudam a descobrir de novo o gosto das coisas, o gosto bom. A vida, minha sobrinha, tem suas alegrias no miúdo, nas "horinhas de descuido", como disse o mais sábio de nós. O estresse pé grande não percebe isso, sorte nossa. Cuidemos apenas para não calar o que nos faz bem.

Com um amor infinito e miúdo,
tia Lu

domingo, 4 de maio de 2014

Amizade

A coisa mais importante dessa vida são os laços de amor. Às vezes acontece de já chegarmos num ninho todo emaranhado deles - a família. Depois vamos alçando voos cada vez maiores e descobrindo um mundo comprido a perder de vista. Dá até um frio na barriga. Mas a vida vai cuidando de nos aproximar de novo daqueles laços, nos dizendo que eles também estão espalhados pelo mundo comprido, que nos ajudarão a dar os nós pra gente não cair, que podem se transformar em rede pra acalentar num balanço e, conforme o tempo passa, tomam a forma de lindos bordados: isso é a amizade. Quando a gente constrói um laço desses, deixa algo no outro e leva algo com a gente que nunca mais se desfaz. A tia aqui deu uma sorte danada de ser presenteada com muitos desses encontros, alguns que penso terem sido construídos num tempo que nem cabe nesse nosso calendário. Assim foi com a amiga Helena, que anda devagar porque já teve pressa e agora leva esse sorriso porque espera a Bia. Que a Bia, como você, possa chegar nesse ninho quentinho todo emaranhado de amor, e que alce voos lindos, cheios de bons encontros. 

Com muito amor,
da tia que será tia de novo
Lu

sábado, 3 de maio de 2014

Soninho

A tia anda cheia de texto entalado, nesses dias corridos que fazem a gente engolir as ideias sem mastigar. E a escrita na maioria das vezes me pede o contrário: pede calma. Então depois dos dias corridos da semana e das horas descansadas de uma soneca sem despertador, acordei nesse sábado de manhã pra escrever pra você. Eu ouço dizer que a primeira coisa que você faz quando acorda é sorrir, e eu, como a dorminhoca número 1 da família, entendo e compartilho esse bom-humor. Mas o dormir pra você (e seus pais e avós) não é tarefa fácil. Me contaram histórias de que, quando era miudinha como você, conseguia fazer minha mãe cochilar no berço de tão cansada e eu ainda de olhinhos de bola de gude abertos como nunca. Devia ser a vontade transbordante de conhecer as tantas coisas novas desse mundo. E essa vontade vejo em você o tempo todo, na atenção em tudo que se passa, na curiosidade da qual tanto já falei. É tão bacana olhar a vida chegando, inquieta, agitada, cheia de energia. Eu sei que você tem muito o que fazer aqui, mas meu conselho de tia madrinha de consagração (agora ganhei mais um nome) é que não fique tão chateada porque é preciso descansar. Aproveite também essa parte, você já descobriu que ela também é uma delícia. E tenha calma: o tempo está a seu favor, e quando não estiver, sempre existem os sábados pela manhã.

Com muito amor,
tia Lu

Amor e merthiolate

Quando seu tio Tatá era pequetito resolveu escalar o fogão da vovó. A sorte é que na medida que ele abriu o forno encontrou lá um cantinho seguro quando o fogão virou. Panela por todos os lados e criança intacta, em mais uma missão dos Anjos Protetores dos Miudinhos Encapetados. Eles também me salvaram quando escalei a pia e cai de lá abraçada com o filtro de barro. Quando crescemos, seu pai nos carregou  pra aprender a fazer essas coisas com mais segurança: corda, boldrie, magnésio, mosquetão, e então começamos a escalar pedras e seu avô Gil sentiu falta da época dos fogões e filtros de barro. Aí nas conversas de família fui descobrindo que tínhamos um dom natural pra coisa: seu tio Vini, recém nascido, ficou pendurado no cano do chuveirinho quando escapuliu dos braços da Dinda e o seu tio Gui, com 3 meses, fez um rapel pelo fio do telefone pra descer da cama. Éramos atletas completos, mestres também nas artes marciais. A Pri deu um chute certeiro na boca do Tatá, que adiantou o fim dos dentes de leite. Usávamos o roupão de banho dos nossos pais pra servir de quimono e um colchão velho pra ser o tatame, e Maria Mutola (meu nome do judô, batizado pelo Thiago, e depois a gente foi descobrir que ela era uma corredora, mas eu já achava esse nome o máximo) foi bicampeã mundial nos campeonatos residenciais. Seu pai adorava uma trilha com bicicleta, às vezes com cachorros raivosos, e seu tio foi o primeiro a fazer Down hill em Miracema, mas por falhas técnicas acabou com o braço quebrado e com a janela de uma casa. Saltos ornamentais na piscina da AABB? Nota: 10. Eu teria mais uma lista incrível de habilidades nossas pra te contar, como uma peculiar experimentação degustativa e culinária, incluindo antimofos, Harpic aroma Lavanda (história apenas mencionada, que me fizeram prometer deixar fora do blog, rs), facas de cozinha e cegueiras temporárias, mas vou ficar por aqui. E nada disso aconteceu porque nossos pais ou os adultos que nos cuidavam foram negligentes. Aconteceu porque fazia parte. Uma vez eu estava conversando com uma mãe quando, toda orgulhosa, me disse que seu filho nunca havia se machucado. Nunca? - eu perguntei. Nunca, ela respondeu. Me assustei e não consegui imaginar uma criança mais triste. Nós te amamos tanto que estaremos sempre do seu lado, com um merthiolate que não arde (a melhor invenção depois da anestesia) a postos.

Com amor e band-aid,
tia Lu

terça-feira, 11 de março de 2014

Superfícies

Você está a cada dia mais linda. E também a cada dia mais curiosa com o mundo. Agora, não basta alcançar as coisas com seus olhinhos vivos – é preciso tocá-las. Te peguei no colo e vieram duas mãozinhas pra descobrir meu rosto: uma achou a bochecha e outra quase torceu meu nariz. Agarraram a gola da blusa, uma mecha do cabelo, o anel que descansava no dedo. Seus pesinhos de bailarina agitam-se a todo tempo, esticam, fazem ponta, levantam, ameaçam pirraça, até encontrarem algo pra descobrir. E aí – eu descobri – você se distrai nessas descobertas. O Bruno e a Helô te despertam sorrisos numa facilidade incrível: uma careta, um barulhinho, uma frase doce e lá está você, mostrando os dentes que ainda não tem. Eu ainda preciso de artimanhas de circo pra conseguir esses resultados, mas você me contou da sua curiosidade. Fomos então descobrir o quarto e o universo de coisas por lá: a maçaneta fria do guarda-roupa, o tecido furadinho do tapa-mosquito, a caixinha de papelão do cotonete, a cestinha acolchoada que fica na cômoda e tudo que tinha dentro dela. Uma angústia danada quando você tentava mas não conseguia pinçar o que estava lá, até ir descobrindo que cada coisa te pedia um jeito diferente, que às vezes a mão precisava estar mais fechadinha, às vezes mais aberta, às vezes ser com mais delicadeza, noutras com mais força. E depois você soltava, deixava ir. E eu que às vezes não quero deixar as coisas irem, fui aprendendo com você. Às vezes o que a gente precisa é abrir as mãos e confiar um pouco mais no mundo. Porque ele, como você também me ensinou, é cheio de descobertas.

Com amor,
tia Lu

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Biquini de bolinha

Não é o sapato novo, o livro que a tia mais gostou de ler, o doce que pela primeira vez deu certo, o sofá que já tá de outra cor, a parede cheia de foto, a mudança na sala ou o que continua do mesmo jeito. Toda vez que alguém chega aqui em casa o que eu quero mostrar é essa toquinha rosa e a calcinha de bolinha. Pra mocinha mais linda e seu primeiro verão!

Com amor,
tia Lu

sábado, 18 de janeiro de 2014

Sorrisos

Enquanto a tia se queixava do pouco tempo com você no colo, seu pai se queixava do tempo demais que ela não publicava historinhas aqui. Aí sua mãe, abrindo um sorriso, perguntou se poderia sugerir um tema: os sorrisos que você anda nos dando de presente. Um dos maiores desafios das palavras é chegar o mais pertinho possível de um afeto, pra ouvir com atenção, como segredo sussurrado, qual delas fica combinando mais. Às vezes o afeto é tão tão que não cabe em palavra nenhuma. A alegria é desses tipos: a gente não fala, sorri. Depois é só esperar - como um contágio, ela se espalha. E quando a gente vê seu sorriso é assim, fica que nem bobo, distribuindo outros tantos. Eu gosto muito de perceber os sorrisos distraídos, aqueles tais que a gente deixa escapar. Você sorri quando acorda, a Helô quando te olha dormir, o Bruno quando brinca com seus pezinhos e eu quando ouço seus pais inventarem frases e histórias pra conversar com você. Dizem que essa é a curva mais bonita do corpo da gente, e eu acho que é mesmo.

Com amor,
tia Lu

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Colinhos

A tia aqui andou se queixando que tinha ficado pouco tempo com você no colo. Pronto: no fim de semana que passou, ganhei dois beijos, um café da manhã, cinco bichinhos coloridos, quatro que tocam música, outras três estratégias pras suas horas de agudo de ópera, e seu pai finalmente foi ao supermercado e sua mãe finalmente fechou os olhos por vinte minutos inteiros (coisas que eles não faziam a um tempão). Aí ficamos nós duas, eu e você. E eu ainda sou muito desajeitada, mas você tem uma paciência danada comigo. Quando eu ia te pegar, te acomodar, te virar você sentia e ia junto, com o que já descobriu e já consegue sustentar do seu corpo. Mas tem uma coisa que deixa seu pavio curto, como diz o vô Gil. E isso é não poder olhar o mundo ao seu redor. Eu me lembro que quando seu pai te apresentou pela primeira vez, atrás do vidro do berçário, você abriu dois olhos enormes pra conhecer a gente, e desde então eles percorrem tudo quanto é coisa por aqui. Aí se a gente te carrega mais deitadinha, pronto, você enguiça. Tem que ser de um jeito que os dois olhinhos vivos possam estar lá, estudando, admirando, conhecendo, observando. Te levei um cadinho lá fora e a gente viu o sol, as plantinhas verdes, aquela que a gente assopra e ela sai voando com o vento (tinha um monte no quintal). Mas aí o braço da tia precisou descansar e os dois minutinhos de descanso no sofá acordaram aquele seu agudo de ópera. Tentei te acalmar de tudo quanto é jeito, mas não teve. Fomos atrás da Helô, e nos braços dela tem um sossego que chega na hora. O Bruno também te segura num redondinho do braço que parece de rede. No colo dos vôs é uma graça: nem precisa de muita conversa, não demora e você cai no sono. Uma vez li um texto muito bonitinho que dizia da sensibilidade das plantas. Como tinham suas raízes presas ao chão, elas aprenderam a se espalhar com o vento e a convidar os outros seres para se aproximar e levá-las ao mundo. Imagino esses colinhos todos te aproximando do mundo, das coisas que tem lá fora, das tantas que tem por aí e do carinho que tem aqui, dentro da gente.

obs: você está com 5 kg! a tia aqui já dobrou as aulas de yoga, vamos ver se da próxima vez te carrego mais!

Com amor,
tia Lu

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A dor de existir

A gente chega ao mundo entre a dor, a força e os transbordamentos de um corpo. O corpo que nos abrigou desde que ainda éramos faísca e emprestou sua energia para que o nosso próprio pudesse se formar. Inaugurando a nossa existência, ganhamos também esse presente: ter um corpo. É porque temos um corpo que podemos sentir. Sentimos o cheiro das coisas, o gosto, se arranha ou se é de veludo, se tem cores demais ou de menos. Você já está fazendo essas descobertas. Mas é porque temos um corpo que também sentimos a dor. As dores das cólicas de quem ainda se acostuma ao alimento, ainda inaugura os contatos da pele, ainda constrói as suas primeiras defesas. Não é um processo fácil, minha sobrinha. É, sim, muito doloroso - eu entendo quando você me diz no seu choro. Tento te acolher nos meu braços de primeira viagem, mas você me conta mais forte, me conta mais alto. Aí peço socorro ao seu pai e à sua mãe, que já entendem melhor das suas dores. É lindo ver o Bruno dançando com você no colo e a Helô te segurando pertinho do peito, pra você sentir o calor. Os carinhos que fazem as dores passar. Mas às vezes elas teimam, voltam, te trazem um desassossego. Se a gente pudesse, botaria todas pra correr num pé só: te saber sentindo dor nos faz sentir uma ainda maior. Mas o que acontece é que elas fazem parte dos processos da vida, da dor de barriga de comer brigadeiro à dor da despedida que aperta o coração. Passaremos pelas dores em muitos momentos, e a cada vez vamos mudando, para recebê-las de outra forma quando precisarem voltar. Estamos sempre inventando um novo corpo. Mas se ter esse corpo é o que nos faz passar pelas dores, que presente de grego, não é mesmo? Esse corpo, no entanto, também te guarda lindas surpresas, tantas sensações e sentimentos bacanas que você já começa ou ainda vai experimentar. Você tem sossegado no balançar, nas músicas que colocam pra você ouvir (da melhor qualidade), nas cantaroladas, no tititi das conversas, no estalo do beijo, na vozinha calma, no carinho no pé e na barriga. Vejo seus pais descobrindo esses jeitos, jeitos de te ajudar a passar pelas dores. E fique tranquila, elas vão passar.

Com amor,
tia Lu

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A gente

Esses dias nos conhecemos de pertinho. Você estava dormindo e assim esteve por toda a tarde. Mas seu sono foi embalado pelas conversas de família, aquelas que você gostava de ouvir quando ainda morava nas nuvens. E cada um de nós ganhou um momentinho contigo, te embalando nos braços enquanto deixava escapar um sorriso pra foto. Os barulhinhos de bebê, os sorrisinhos que você também deixava escapar - apaixonantes. E cada um foi arrumando um jeito de te receber. Eu olhei, quis treinar antes, mas não era preciso, a gente se acomoda. Você se acomodou, e percebi que quando acalmei meu respirar, você foi se acalmando junto. E ficou ali, quietinha. E quietinhas, conversamos. Te contei do dia, do quintal que dá pra ver da janela, das flores, da gente. Tão bom de ter pertinho.

Com amor,
tia Lu

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Os começos

A vida é toda ela feita de chegadas e partidas. Estamos a todo tempo nos despedindo de algo e inaugurando começos, fazendo e refazendo. O nascimento talvez seja a primeira experiência em que passamos por essas refeituras, e você, minha sobrinha, experimentou essa descoberta no dia 25 de setembro de 2013, quando o cantinho quente e sob medida onde esteve por esses nove meses deu lugar ao mundo. Essa chegada é grande um espanto. De repente frio, sem a gente nem saber o que é frio ainda, e o ar entrando pelo nariz, e alguém nos segurando de cabeça pra baixo, e o espaço pra esticar os dedos, sem a gente entender direito que eles fazem parte da gente. Mas chegam então outros aconchegos, nos braços da mamãe emocionada e do papai desajeitado que nos mostrava você pela janela de vidro do berçário. Você é uma miudeza, Camille, a mais linda de todo o mundo. E daquele rostinho miúdo se abriram dois olhinhos vivos e curiosos, que lutavam contra a luz para nos conhecer. Seja bem-vinda, eu disse, baixinho, desse baixinho que sempre alcança o lá longe. O papai inaugurando o colo de pai, a mamãe inaugurando o peito de mãe. Você mama à beça, me contaram. E toda vez que me contam de novo (a gente repete as notícias e sorri como se nunca tivesse ouvido) eu imagino você experimentando essas outras descobertas: a fome, a saciedade, o gosto, o cheiro, o contato, as percepções. O tudo novo no mundo. E do outro lado, seus pais e o primeiro banho, a primeira preocupação, as primeiras noites sem dormir, o ir construindo aos poucos isso que é ser pai e mãe. Enquanto nós te esperávamos no café da maternidade, ficamos lembrando das histórias de quando éramos pequenos. Parece mentira, mas a gente sobrevive - e ainda dá muitas risadas! Não conto todas pra não te dar ideias que vão me matar de preocupação, mas daqui a uns anos é capaz da gente estar lembrando das suas histórias e também dando muitas risadas. Das suas, das de seus pais, das nossas, que também estamos aqui, inventando o que é ser tia, ser primo, ser vô, ser bisa. Você nos ensina? 

Com amor,
tia Lu

obs: quando seu pai nos ligou dizendo estava chegando a hora, veio um carro de Friburgo recolhendo gente, e aperta daqui e de lá e cabe mais um. E chegando, encontramos mais abraços, mais histórias, mais sorrisos, mais gente pra compartilhar a ansiedade. E então liga pra quem lá longe poder estar mais perto. E os laços que nos uniam, a todos nós, ali ficaram mais fortes. Sua espera aconteceu num clima tão bom que, de todos os lugares do mundo, a gente preferiria estar ali. Família.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Tempo

Pode ser amanhã, ou sexta, mas do fim de semana não passa, nos disseram. Você chega logo. Mas fique tranquila, Camille, o tempo é mesmo um mistério. Às vezes ele é um sopro, que quando se faz sentir aí então que já acabou. Às vezes um vento, que passa e movimenta o que estiver no caminho. Tem também aquelas em que ele encontra uma paisagem bonita, um banco de praça e resolve ficar parado, apreciando, enquanto tudo mais acontece. O tempo pode passar como um vagão atrasado de metrô ou pode durar a eternidade de uma noite de sono. E o mais incrível é que ele consegue fazer tudo isso caber em nós, porque cada coisa tem seu tempo. E quando for o seu, quando você sentir que for o seu tempo, pode chegar. E seja bem-vinda.

Com amor,
Tia Lu

obs: não deu tempo de publicar esse texto antes da sua chegada :) 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Nuvens

Camille, você está quase chegando. Aquela sementinha miúda que você foi um dia ganhou tanto espaço que quase já não cabe na barriga da mamãe. E de tanto crescer, foi ocupando, um a um, o coração de todos nós. Como pode a gente amar tanto alguém que ainda não conhece? Mas eu vou te contar um segredo: acho que a gente já se conhecia. Você morava numa dessas nuvens de algodão do céu de janeiro, e de lá passava o tempo espiando a vida por aqui. Tem muita gente que não sabe disso, mas as histórias que contamos flutuam como balões de ar e chegam até as nuvens. Aí um dia você cismou que queria vir. Você quis ouvir as histórias de perto, e pra nossa sorte, nos escolheu. Não teve anjo que te convencesse do contrário. Então foi chegando quietinha, e ali ao lado ficava, principalmente nos almoços de domingo onde todo mundo se reunia, porque nesse dia era um falatório só. A casa cheia e alegre. E numa dessas conversas, você escutou que já estava na hora dos velhotes serem avós. Pronto, era o que precisava: você ficaria por aqui. Mas ainda sentia uma falta danada de lá. Aí o Bruno e a Helô pegaram o carro, subiram, subiram, subiram até encontrar o lugar certo. E então construíram uma casa. E se a gente abre a porta, a nuvem entra, pra quando te der saudades. Você não poderia ter encontrado pais melhores. 

Estamos todos à sua espera. 

Com lágrimas de amor,
tia Lu

terça-feira, 16 de julho de 2013

Às ruas

O assunto agora é sério. Não se assuste quando a tia falar assim; é só um começo que faz as pessoas prestarem mais atenção. O mundo está mudando, Camille. Todos os dias. Mas nesses últimos parece que as mudanças são maiores. As ruas de todo o Brasil se encheram de gente. Não é carnaval nem final de Copa do Mundo; não fomos à rua comemorar diversões. Fomos gritar contra as tantas injustiças cometidas por aqueles deveriam estar cuidando desse país.  Tem muita gente no governo que esqueceu disso, outra que eu acho que nunca chegou a lembrar. Mas fomos lá, enchemos avenidas, para lembrá-los e a todos nós também. Vivemos num país com tantos casos de corrupção que isso já não deixa ninguém de boca aberta, e tem coisas que a gente nunca pode se acostumar. O que começou como um protesto para acabar com o aumento das passagens de ônibus fez explodir a indignação com as péssimas condições do transporte público, com as más amizades entre políticos e empresários, com a saúde pública que anda muito doente, com um espanador da prefeitura que derruba casas de pessoas pobres porque a área onde elas moravam se tornou mais importante, com a fumaça que a polícia sopra nas manifestações e não deixa ninguém respirar direito ou as balas de borracha que machucam mais, com essa ação que se torna ainda mais violenta onde se tem menos dinheiro. Essas e muitas outras insatisfações ganharam corpo nesses tempos. Talvez as ruas voltem às suas rotinas, mas alguma coisa já não é mais como antes. O mundo está pedindo mudanças, Camille, e nós fazemos parte disso.

Com amor,
tia Lu

sábado, 25 de maio de 2013

Estradas

Um dia, sua mãe subiu a serra para estudar numa faculdade. Encontrou por lá muitos números, cálculos, amigos e um amor. Dessa equação, surgiu você. E desde essa época as estradas fazem parte da vida dos seus pais. Rodovias e alamedas pra ver o vô e a vó, de cá e de lá, pontes para ir e voltar do trabalho, outra serra pra chegar em casa, mapas pra rodar pelo mundo. A verdade é que essa cisma pelas estradas é de família. Cada um pegou um ônibus e foi parar num lugar diferente. Nunca vi um povo gostar tanto de colocar  a mochila nas costas e - o mais curioso - encontrar outra gente assim também. E nesses encontros, a família foi ficando maior, e a gente arrumando mais uma desculpa pra viajar por aí. O duro de cada um estar em um cantinho é que dá uma saudade danada. Mas tem uma coisa que não deixa distância nenhuma ser grande: é o amor. É isso que nos mantêm unidos, pelas tantas estradas que nos ligam.

Com amor,
tia Lu

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Cores

Quando ainda tínhamos espinha no rosto e hora pra voltar pra casa, chegamos do colégio e o nosso doce lar estava pintado de laranja. As paredes descascando já pediam uma reforma, e seu avô, um exemplo de discrição, resolveu experimentar uma cor nova - mas um laranja bonito, como o do vizinho, que ele tinha gostado muito. O povo todo torceu o nariz, e é com constrangimento que digo isso, mas eu também. Nosso pai foi injustamente condenado até o tempo amenizar a força do laranja. Mas sua tia cresceu (um pouquinho) e acabou foi mordendo a língua. Descobri o que nosso pai já tinha descoberto naquela época - que a vida em preto e branco só fica bonita nas fotos. E na casa do seu tio Tatá e do seu tio Vini, mas nada contra se eles acrescentassem mais corzinha por lá. E descobrindo isso, descobri pincéis, corantes, misturas, tons que eu nunca tinha visto antes e que resolvia experimentar em algum móvel. E se não gostasse, que viesse então o próximo candidato. A piada foi que meu armário cresceu com as tantas camadas de tinha que recebeu. Mas a casa ficou sorridente, como são os dias de sol. Me disseram que seu quarto está ficando pronto, e quarto da gente é como a casa da gente - nele a gente pode o mundo. Pois então, se um dia quiser descobrir pincéis, a gente faz uma bagunça por lá! Ah, já estava quase me esquecendo: cheguei em casa ontem e a porta de entrada estava laranja! Seu avô esteve por aqui. Agora eu que fico sorridente toda vez que chego.

Com amor,
tia Lu

terça-feira, 14 de maio de 2013

Presente de dia das mães

Esse domingo que passou comemoramos o dia das mães. As mães são seres incríveis, dramáticos, médiuns, fortes, sábios, coercitivos, delicados e surpreendentes. O que dizem essas palavras você irá aprender ao longo da vida e acrescentar muitas outras nessa frase. E no domingo sua avó ganhou um presentão. Acordei com as gargalhadas frouxas e já quase sem fôlego dos seus pais, que tentavam convidá-la para o casamento. Da última vez, a vovó tinha ficado fula da vida por não ter participado (foram só os dois mesmo) e fez todo mundo prometer que isso não aconteceria de novo. Ué, mas então eles iam casar mais uma vez? É o que seus pais tentavam explicar entre risos e soluços. O contrato era de união estável, agora eles iam formalizar o estar junto de outro jeito. Depois de se conhecerem, namorarem, ficarem noivos, serem unidos estavelmente, trabalharem muito, juntarem dinheiro, comprarem um terreno, construírem uma casa, morarem nela, encomendarem você, iriam, até que enfim, casar. E dessa vez sua avó seria a convidada. E a testemunha. E a mãe do noivo. E a sogra da noiva. E a madrinha. E, pra fazer um agrado, podia também pagar o jantar de comemoração, mas sobre isso acho que eles vão falar um outro dia. Isso é que é levar a sério um pedido de mãe!

Com amor,
tia Lu 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Seu nome


Agora já sabemos como você irá se chamar. E cá entre nós duas, eu soube antes de todo mundo – ah, não leve a sério essas vaidades, coisa de tia coruja. Mas isso deve ser por causa dessa história de contar histórias pra você.  Pra você, Camille (com dois "l"s, como seu pai corrigiu). Em breve você vai ouvir tanta gente chamar pelo seu nome que pode parecer que ele existiu desde sempre. Mas na verdade foi escolhido, entre tantos outros nomes, com muito carinho. Um nome delicado, que viajou pra chegar até aqui, que diz de alguém com habilidade para liderança, para conduzir boas ações, que dá importância à família e se preocupa com as pessoas. Foi o significado que seus pais me disseram, mas acho que essa descrição que tem muito a ver com eles e com as coisas que têm pra te ensinar. Seus pais são pessoas maravilhosas que irão te ajudar a seguir pelos melhores caminhos, nesse processo tão bonito que é o educar. 

Com amor,
tia Lu

sábado, 4 de maio de 2013

Abóbora e biscoito


O pessoal dessa família adora cuidar. E um jeito deles fazerem isso é se preocupando bastante com a nossa alimentação. “Você tem se alimentado direito?” é uma pergunta que vamos ter que responder pra sempre, não importa a idade que tenha. Mas até uma certa idade, o controle é mais de perto. E a vó Taí não dá moleza quando o assunto é esse. Tem uma história que seu pai vai te contar quando você estiver maiorzinha, de uma combinação nós dois fizemos de beber uma coca-cola escondido (porque só podia fim de semana e de vez em quando). Mas se ele achar melhor não te contar, me lembre que eu te conto, escondido. Com a vó Taí, é comida caseira, feijão, beterraba, alface, abóbora - disfarçada no feijão, pra quem não gosta comer mesmo assim.  Truques importantes que damos razão quando crescemos. Aí entra o vovô Gil, com jujuba, chocolate, doce de leite, paçoca. Itens importantes que damos razão desde que somos pequenos. Outro dia o vô veio aqui em casa e quando ele vem já posso contar com o biscoito de chocolate no armário e o sorvete no congelador. Ah, e também apareceram mamão, maçã e laranja na fruteira – adivinha a pedido de quem.

Com amor,
tia Lu

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Brinquedos


Nesse fim de semana recebemos a visita de três princesas: Cinderela, Branca de Neve e Rapunzel. Também conhecidas como Ana Beatriz, Ana Luiza e Ana Clara. São suas primas, filhas do Carlinho e da Suely. A Bia e Lulu são igualzinhas: quando ainda estavam na barriga, cresceram ao mesmo tempo e foram feitas na mesma fôrma. Mas cada uma tem seu jeitinho. E a Aninha, como a mais velha, entra pra ajudar quando as irmãs brigam pelo mesmo brinquedo. Tem pra todo mundo, ela diz. E é verdade. Tudo na mão de vocês vira brinquedo: o elefantinho que enfeita a sala, o galo que muda de cor quando tá pra chover, o porta retrato, a mini torre eiffel que alguém trouxe de lembrança. Mas eu gostei mesmo da caixa que as priminhas tinham na casa do tio Itamar e da tia Palmira, cheia de potinhos vazios, tampas de plástico, peças soltas e mais um tanto de sucata e bugiganga. Ali, dava pra se distrair uma tarde toda. Depois disso, fiquei pensando: não sei pra que tanta loja de brinquedo, se já tem tanto brinquedo no mundo.

Com amor,
tia Lu

Lições


Dias atrás recebi uma ligação com a notícia que esperávamos desde daquele domingo de páscoa: você é uma menina. Outro chororô ! E se fosse menino, o povo aqui ia se emocionar do mesmo jeito. É que cada novidade sobre você nos enche de alegria. Aí contei pruma amiga minha, a Fefê, que já tem experiência nessa história de ser tia. Ela perguntou se eu ia comprar seu lacinho rosa. E sabe o que eu imaginei? O lacinho rosa prendendo seu cabelo pra não ficar caindo no rosto enquanto a gente planta bananeira na parede. E vira estrela. A tia vai te ensinar isso tudo.

Com amor,
tia Lu

O começo


Deixa eu te contar como foi que te conheci. Era um domingo de manhã – domingo de páscoa, que a gente já levanta da cama comendo chocolate. Abri os olhos com seu pai me dizendo: acorda pra gente tomar café junto, tenho uma mensagem pra ler. Foi aí que eu soube de você, antes mesmo do café, antes ainda da mensagem. Fiquei quietinha pra não estragar a surpresa, porque não tem coisa melhor nesse mundo que a chegada de uma notícia boa. E com todo mundo em volta da mesa  (e o todo mundo desse dia éramos eu, sua avó, seu avô, sua bisa),  o Bruno e a Helô  pegaram o celular e leram a mensagem: era sua, avisando que estava a caminho. Aí foi um chororô danado. Por aqui, a gente também chora quando está alegre, porque às vezes a alegria é tão grande que transborda. A gente transbordava a cada vez que seus pais contavam de novo da sua chegada, para o todo mundo que faltava ali na mesa. Sua mensagem foi alcançando nossa família e espalhada entre os amigos, que também transbordaram de alegria. Seus pais contaram que já puderam te ver pelos exames, que você abriu as mãozinhas, que seu coração bate ligeiro. Você está trabalhando bastante por aí, já deu pra perceber. E deve ser por isso que é só encostar na cama que sua mãe dorme – vocês também precisam descansar, não é isso? Trabalhe, descanse, aproveite o aconchego,  fique tranquila (o). Daqui a pouco estaremos abrindo os ovos de páscoa num domingo de manhã. E esse foi o começo que eu lembro, mas se você perguntar por aí cada um vai contar de um jeito e lembrar de mais alguma coisa. Porque a vida é assim mesmo: cheia de começos e histórias, que a gente vai ouvindo diferente quando contada por cada um.

Com amor,
tia Lu