domingo, 4 de maio de 2014

Amizade

A coisa mais importante dessa vida são os laços de amor. Às vezes acontece de já chegarmos num ninho todo emaranhado deles - a família. Depois vamos alçando voos cada vez maiores e descobrindo um mundo comprido a perder de vista. Dá até um frio na barriga. Mas a vida vai cuidando de nos aproximar de novo daqueles laços, nos dizendo que eles também estão espalhados pelo mundo comprido, que nos ajudarão a dar os nós pra gente não cair, que podem se transformar em rede pra acalentar num balanço e, conforme o tempo passa, tomam a forma de lindos bordados: isso é a amizade. Quando a gente constrói um laço desses, deixa algo no outro e leva algo com a gente que nunca mais se desfaz. A tia aqui deu uma sorte danada de ser presenteada com muitos desses encontros, alguns que penso terem sido construídos num tempo que nem cabe nesse nosso calendário. Assim foi com a amiga Helena, que anda devagar porque já teve pressa e agora leva esse sorriso porque espera a Bia. Que a Bia, como você, possa chegar nesse ninho quentinho todo emaranhado de amor, e que alce voos lindos, cheios de bons encontros. 

Com muito amor,
da tia que será tia de novo
Lu

sábado, 3 de maio de 2014

Soninho

A tia anda cheia de texto entalado, nesses dias corridos que fazem a gente engolir as ideias sem mastigar. E a escrita na maioria das vezes me pede o contrário: pede calma. Então depois dos dias corridos da semana e das horas descansadas de uma soneca sem despertador, acordei nesse sábado de manhã pra escrever pra você. Eu ouço dizer que a primeira coisa que você faz quando acorda é sorrir, e eu, como a dorminhoca número 1 da família, entendo e compartilho esse bom-humor. Mas o dormir pra você (e seus pais e avós) não é tarefa fácil. Me contaram histórias de que, quando era miudinha como você, conseguia fazer minha mãe cochilar no berço de tão cansada e eu ainda de olhinhos de bola de gude abertos como nunca. Devia ser a vontade transbordante de conhecer as tantas coisas novas desse mundo. E essa vontade vejo em você o tempo todo, na atenção em tudo que se passa, na curiosidade da qual tanto já falei. É tão bacana olhar a vida chegando, inquieta, agitada, cheia de energia. Eu sei que você tem muito o que fazer aqui, mas meu conselho de tia madrinha de consagração (agora ganhei mais um nome) é que não fique tão chateada porque é preciso descansar. Aproveite também essa parte, você já descobriu que ela também é uma delícia. E tenha calma: o tempo está a seu favor, e quando não estiver, sempre existem os sábados pela manhã.

Com muito amor,
tia Lu

Amor e merthiolate

Quando seu tio Tatá era pequetito resolveu escalar o fogão da vovó. A sorte é que na medida que ele abriu o forno encontrou lá um cantinho seguro quando o fogão virou. Panela por todos os lados e criança intacta, em mais uma missão dos Anjos Protetores dos Miudinhos Encapetados. Eles também me salvaram quando escalei a pia e cai de lá abraçada com o filtro de barro. Quando crescemos, seu pai nos carregou  pra aprender a fazer essas coisas com mais segurança: corda, boldrie, magnésio, mosquetão, e então começamos a escalar pedras e seu avô Gil sentiu falta da época dos fogões e filtros de barro. Aí nas conversas de família fui descobrindo que tínhamos um dom natural pra coisa: seu tio Vini, recém nascido, ficou pendurado no cano do chuveirinho quando escapuliu dos braços da Dinda e o seu tio Gui, com 3 meses, fez um rapel pelo fio do telefone pra descer da cama. Éramos atletas completos, mestres também nas artes marciais. A Pri deu um chute certeiro na boca do Tatá, que adiantou o fim dos dentes de leite. Usávamos o roupão de banho dos nossos pais pra servir de quimono e um colchão velho pra ser o tatame, e Maria Mutola (meu nome do judô, batizado pelo Thiago, e depois a gente foi descobrir que ela era uma corredora, mas eu já achava esse nome o máximo) foi bicampeã mundial nos campeonatos residenciais. Seu pai adorava uma trilha com bicicleta, às vezes com cachorros raivosos, e seu tio foi o primeiro a fazer Down hill em Miracema, mas por falhas técnicas acabou com o braço quebrado e com a janela de uma casa. Saltos ornamentais na piscina da AABB? Nota: 10. Eu teria mais uma lista incrível de habilidades nossas pra te contar, como uma peculiar experimentação degustativa e culinária, incluindo antimofos, Harpic aroma Lavanda (história apenas mencionada, que me fizeram prometer deixar fora do blog, rs), facas de cozinha e cegueiras temporárias, mas vou ficar por aqui. E nada disso aconteceu porque nossos pais ou os adultos que nos cuidavam foram negligentes. Aconteceu porque fazia parte. Uma vez eu estava conversando com uma mãe quando, toda orgulhosa, me disse que seu filho nunca havia se machucado. Nunca? - eu perguntei. Nunca, ela respondeu. Me assustei e não consegui imaginar uma criança mais triste. Nós te amamos tanto que estaremos sempre do seu lado, com um merthiolate que não arde (a melhor invenção depois da anestesia) a postos.

Com amor e band-aid,
tia Lu