Quando seu tio Tatá era pequetito resolveu escalar o fogão da vovó. A sorte é que na medida que ele abriu o forno encontrou lá um cantinho seguro quando o fogão virou. Panela por todos os lados e criança intacta, em mais uma missão dos Anjos Protetores dos Miudinhos Encapetados. Eles também me salvaram quando escalei a pia e cai de lá abraçada com o filtro de barro. Quando crescemos, seu pai nos carregou pra aprender a fazer essas coisas com mais segurança: corda, boldrie, magnésio, mosquetão, e então começamos a escalar pedras e seu avô Gil sentiu falta da época dos fogões e filtros de barro. Aí nas conversas de família fui descobrindo que tínhamos um dom natural pra coisa: seu tio Vini, recém nascido, ficou pendurado no cano do chuveirinho quando escapuliu dos braços da Dinda e o seu tio Gui, com 3 meses, fez um rapel pelo fio do telefone pra descer da cama. Éramos atletas completos, mestres também nas artes marciais. A Pri deu um chute certeiro na boca do Tatá, que adiantou o fim dos dentes de leite. Usávamos o roupão de banho dos nossos pais pra servir de quimono e um colchão velho pra ser o tatame, e Maria Mutola (meu nome do judô, batizado pelo Thiago, e depois a gente foi descobrir que ela era uma corredora, mas eu já achava esse nome o máximo) foi bicampeã mundial nos campeonatos residenciais. Seu pai adorava uma trilha com bicicleta, às vezes com cachorros raivosos, e seu tio foi o primeiro a fazer Down hill em Miracema, mas por falhas técnicas acabou com o braço quebrado e com a janela de uma casa. Saltos ornamentais na piscina da AABB? Nota: 10. Eu teria mais uma lista incrível de habilidades nossas pra te contar, como uma peculiar experimentação degustativa e culinária, incluindo antimofos, Harpic aroma Lavanda (história apenas mencionada, que me fizeram prometer deixar fora do blog, rs), facas de cozinha e cegueiras temporárias, mas vou ficar por aqui. E nada disso aconteceu porque nossos pais ou os adultos que nos cuidavam foram negligentes. Aconteceu porque fazia parte. Uma vez eu estava conversando com uma mãe quando, toda orgulhosa, me disse que seu filho nunca havia se machucado. Nunca? - eu perguntei. Nunca, ela respondeu. Me assustei e não consegui imaginar uma criança mais triste. Nós te amamos tanto que estaremos sempre do seu lado, com um merthiolate que não arde (a melhor invenção depois da anestesia) a postos.
Com amor e band-aid,
tia Lu
Com amor e band-aid,
tia Lu
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