domingo, 26 de outubro de 2014

Cantarolices

Preciso lhe contar uma coisa. Antes de você chegar, eu já era tia. E ganhei esse título do jeito mais bacana de todos: fui adotada por uma sobrinha. Isso aconteceu num dos dias em que seu pai e sua mãe celebravam a união, juntando a família num casarão antigo com jardim no fundo e restaurante de filme. Eu e a Lili, sua prima, descobrimos lá no cantinho um piano de calda. Sentamos com a elegância de duas musicistas famosas e ela se arriscou a me ensinar algumas notas. Foi a sinfonia mais linda e desafinada que aquele salão já assistiu (linda por conta da Lili, desafinada por causa do garçom que me desconcentrou). Você, que ainda estava dentro da barriga da Helô, ficou ouvindo tudo. Foi aí que eu ganhei uma sobrinha e também aí que você começou a dançar. É impressionante como você gosta de música: não importa o que esteja fazendo, quando alguém canta, quando passa a propaganda com o tema do desenho, quando alguém aperta o brinquedinho que toca, você pára tudo e começa a dançar. E nós, que já havíamos esquecido como fazia, voltamos a chacoalhar o esqueleto, improvisar letras, tirar poeira daquele instrumento perdido, cantarolar melodias. Toda vez que volto de algum de nossos encontros me pego distraída cantarolando as peripécias da dona aranha, da casa infestada de cupim, do gato, coitado, que berrou por causa de uma travessura das brabas. A vida com você é assim: muito mais cantarolante. 

Com um amor rico rico rico de marré-de-si,
tia Lu

obs: esse texto era uma encomenda pra eu contasse dos seus dentinhos nervosos que às vezes deixam marcas na gente (e deixou na bochecha irresistível da Lili), mas acabei lembrando dessa outra historinha que furou a fila e entrou na frente. Mas deixo aqui um pedido: guarde os dentinhos pra mostrar nos seus sorrisos lindos e pra picotar os biscoitos, tenha dó da gente! Dó maior.