terça-feira, 11 de março de 2014

Superfícies

Você está a cada dia mais linda. E também a cada dia mais curiosa com o mundo. Agora, não basta alcançar as coisas com seus olhinhos vivos – é preciso tocá-las. Te peguei no colo e vieram duas mãozinhas pra descobrir meu rosto: uma achou a bochecha e outra quase torceu meu nariz. Agarraram a gola da blusa, uma mecha do cabelo, o anel que descansava no dedo. Seus pesinhos de bailarina agitam-se a todo tempo, esticam, fazem ponta, levantam, ameaçam pirraça, até encontrarem algo pra descobrir. E aí – eu descobri – você se distrai nessas descobertas. O Bruno e a Helô te despertam sorrisos numa facilidade incrível: uma careta, um barulhinho, uma frase doce e lá está você, mostrando os dentes que ainda não tem. Eu ainda preciso de artimanhas de circo pra conseguir esses resultados, mas você me contou da sua curiosidade. Fomos então descobrir o quarto e o universo de coisas por lá: a maçaneta fria do guarda-roupa, o tecido furadinho do tapa-mosquito, a caixinha de papelão do cotonete, a cestinha acolchoada que fica na cômoda e tudo que tinha dentro dela. Uma angústia danada quando você tentava mas não conseguia pinçar o que estava lá, até ir descobrindo que cada coisa te pedia um jeito diferente, que às vezes a mão precisava estar mais fechadinha, às vezes mais aberta, às vezes ser com mais delicadeza, noutras com mais força. E depois você soltava, deixava ir. E eu que às vezes não quero deixar as coisas irem, fui aprendendo com você. Às vezes o que a gente precisa é abrir as mãos e confiar um pouco mais no mundo. Porque ele, como você também me ensinou, é cheio de descobertas.

Com amor,
tia Lu