Você está a cada dia mais linda.
E também a cada dia mais curiosa com o mundo. Agora, não basta alcançar as
coisas com seus olhinhos vivos – é preciso tocá-las. Te peguei no colo e vieram
duas mãozinhas pra descobrir meu rosto: uma achou a bochecha e outra quase
torceu meu nariz. Agarraram a gola da blusa, uma mecha do cabelo, o anel que
descansava no dedo. Seus pesinhos de bailarina agitam-se a todo tempo, esticam,
fazem ponta, levantam, ameaçam pirraça, até encontrarem algo pra descobrir. E
aí – eu descobri – você se distrai nessas descobertas. O Bruno e a Helô te
despertam sorrisos numa facilidade incrível: uma careta, um barulhinho, uma
frase doce e lá está você, mostrando os dentes que ainda não tem. Eu ainda
preciso de artimanhas de circo pra conseguir esses resultados, mas você me
contou da sua curiosidade. Fomos então descobrir o quarto e o universo de
coisas por lá: a maçaneta fria do guarda-roupa, o tecido furadinho do
tapa-mosquito, a caixinha de papelão do cotonete, a cestinha acolchoada que
fica na cômoda e tudo que tinha dentro dela. Uma angústia danada quando você
tentava mas não conseguia pinçar o que estava lá, até ir descobrindo que cada
coisa te pedia um jeito diferente, que às vezes a mão precisava estar mais
fechadinha, às vezes mais aberta, às vezes ser com mais delicadeza, noutras com
mais força. E depois você soltava, deixava ir. E eu que às vezes não quero
deixar as coisas irem, fui aprendendo com você. Às vezes o que a gente precisa
é abrir as mãos e confiar um pouco mais no mundo. Porque ele, como você também
me ensinou, é cheio de descobertas.
Com amor,
tia Lu
Com amor,
tia Lu
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