terça-feira, 15 de outubro de 2013

A gente

Esses dias nos conhecemos de pertinho. Você estava dormindo e assim esteve por toda a tarde. Mas seu sono foi embalado pelas conversas de família, aquelas que você gostava de ouvir quando ainda morava nas nuvens. E cada um de nós ganhou um momentinho contigo, te embalando nos braços enquanto deixava escapar um sorriso pra foto. Os barulhinhos de bebê, os sorrisinhos que você também deixava escapar - apaixonantes. E cada um foi arrumando um jeito de te receber. Eu olhei, quis treinar antes, mas não era preciso, a gente se acomoda. Você se acomodou, e percebi que quando acalmei meu respirar, você foi se acalmando junto. E ficou ali, quietinha. E quietinhas, conversamos. Te contei do dia, do quintal que dá pra ver da janela, das flores, da gente. Tão bom de ter pertinho.

Com amor,
tia Lu

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Os começos

A vida é toda ela feita de chegadas e partidas. Estamos a todo tempo nos despedindo de algo e inaugurando começos, fazendo e refazendo. O nascimento talvez seja a primeira experiência em que passamos por essas refeituras, e você, minha sobrinha, experimentou essa descoberta no dia 25 de setembro de 2013, quando o cantinho quente e sob medida onde esteve por esses nove meses deu lugar ao mundo. Essa chegada é grande um espanto. De repente frio, sem a gente nem saber o que é frio ainda, e o ar entrando pelo nariz, e alguém nos segurando de cabeça pra baixo, e o espaço pra esticar os dedos, sem a gente entender direito que eles fazem parte da gente. Mas chegam então outros aconchegos, nos braços da mamãe emocionada e do papai desajeitado que nos mostrava você pela janela de vidro do berçário. Você é uma miudeza, Camille, a mais linda de todo o mundo. E daquele rostinho miúdo se abriram dois olhinhos vivos e curiosos, que lutavam contra a luz para nos conhecer. Seja bem-vinda, eu disse, baixinho, desse baixinho que sempre alcança o lá longe. O papai inaugurando o colo de pai, a mamãe inaugurando o peito de mãe. Você mama à beça, me contaram. E toda vez que me contam de novo (a gente repete as notícias e sorri como se nunca tivesse ouvido) eu imagino você experimentando essas outras descobertas: a fome, a saciedade, o gosto, o cheiro, o contato, as percepções. O tudo novo no mundo. E do outro lado, seus pais e o primeiro banho, a primeira preocupação, as primeiras noites sem dormir, o ir construindo aos poucos isso que é ser pai e mãe. Enquanto nós te esperávamos no café da maternidade, ficamos lembrando das histórias de quando éramos pequenos. Parece mentira, mas a gente sobrevive - e ainda dá muitas risadas! Não conto todas pra não te dar ideias que vão me matar de preocupação, mas daqui a uns anos é capaz da gente estar lembrando das suas histórias e também dando muitas risadas. Das suas, das de seus pais, das nossas, que também estamos aqui, inventando o que é ser tia, ser primo, ser vô, ser bisa. Você nos ensina? 

Com amor,
tia Lu

obs: quando seu pai nos ligou dizendo estava chegando a hora, veio um carro de Friburgo recolhendo gente, e aperta daqui e de lá e cabe mais um. E chegando, encontramos mais abraços, mais histórias, mais sorrisos, mais gente pra compartilhar a ansiedade. E então liga pra quem lá longe poder estar mais perto. E os laços que nos uniam, a todos nós, ali ficaram mais fortes. Sua espera aconteceu num clima tão bom que, de todos os lugares do mundo, a gente preferiria estar ali. Família.