domingo, 8 de junho de 2014

Descuidos

A vida do outro esbarra na nossa a todo tempo: nas calçadas, no sinal fechado, no espelho do elevador, no vão que separa os apartamentos. Espaços que nos dividem e que dividem com a gente um pedacinho do outro. Na minha cozinha chegam muitos desses pedacinhos em conversas que o vento traz entre os vidros da janela. Adoro ouvir a vizinha de cima cantando sambas antigos, com a voz rouca de um cigarro que ela jura que não fuma mais. Não gostava quando o casal ao lado entrava numa briga: eram desentendimentos que me traziam angústia. E hoje, na portaria, encontrei uma outra vizinha que me repartiu a melhor das notícias: sua saúde andou pisando em gravetos, numa fragilidade preocupante, mas os sustos tinham passado. Havia adoecido por causa do estresse. E esse mesmo estresse era um dos seus pedacinhos que me chegavam pelo vidro da cozinha, numa voz impaciente que pedia ao filho "silêncio!" . Tive vontade de lhe falar que ela passara pelo mais difícil, que nada mais lhe derrubaria, que aproveitasse a nova fase para curtir o que tanto temia perder. Mas esse esbarrar da vida, por ser sempre pedaço e nem sempre consentido, pede de nós uma delicadeza sobre o que dizer. Estava feliz por ela estar bem, e por isso sorrimos e isso já foi tudo. Mas fui embora pensando no quanto o estresse é um bicho danado. Às vezes ele, junto com os problemas, as horas pouco dormidas, as chateações que nos apertam as sobrancelhas, deixa a vida muito cansada . É como uma sombra que, de cada coisa, vai tirando a sua luz. Tem dias que escapar disso é um desafio sem tamanho. Por isso a gente precisa lembrar sempre dos nossos lugares de respirar, aqueles intervalos que ajudam a descobrir de novo o gosto das coisas, o gosto bom. A vida, minha sobrinha, tem suas alegrias no miúdo, nas "horinhas de descuido", como disse o mais sábio de nós. O estresse pé grande não percebe isso, sorte nossa. Cuidemos apenas para não calar o que nos faz bem.

Com um amor infinito e miúdo,
tia Lu